A Psicanálise será arte?

por Eduardo Verano

Publicação Original: , em 2014-10-30

 A Psicanálise será arte?[1]

 

Eduardo Ramos Verano[2]

 

"A psicanálise é um sintoma... ela faz parte desse mal estar na civilização de que Freud fala." (Jacques Lacan)

 

"O sintoma é a não equivalência." (Jacques Lacan)

 

A"Se eu fosse um poeta melhor, seria melhor analista." (Jacques Lacan)

 

Fazer falar, fazer falhar. Freud e Ana, freudiana. O ato é falho e esta descoberta determina uma ruptura na maneira de pensar, antes só pensável para os poetas.

É Freud que abre estas estranhas trilhas e dá o nome de psicanálise a esta aventura. O desvio diz a via. Quando o "Homem dos ratos" chama Freud de "meu capitão", isso, esse tropo próprio da linguagem, esse desvio, diz a via. O ato falho, que é bem sucedido, abre caminho, cria a substituição de uma coisa por outra. A metáfora, como ato de linguagem, poderá levar o sujeito metonimicamente para outros sítios. Do ir falando o pensado, o sujeito vai produzindo ditos impensáveis. Essa experiência, sob transferência, vai determinar a passagem da fixação para a ficção. E isso já é ato criativo. É dessa ruptura na maneira de pensar que nasce a psicanálise.

E é assim que ela, a psicanálise, se inscreve na tradição oral, ou seja, é uma ciência da interpretação. E é o próprio Freud quem afirma que os poetas o antecederam na descoberta do inconsciente. São eles, os poetas, que fazem nascer da linguagem uma palavra com um alcance muito além da comunicação. Este poema de Octávio Paz indica bem o achado freudiano:

Irmandade

Sou homem: duro pouco

e é enorme a noite.

Mas olho para cima:

as estrelas escrevem.

Sem entender compreendo:

Também sou escritura

e neste mesmo instante

alguém me soletra.

 

O verdadeiro pecado original é o desejo de saber. É a versão mítica do falante descoberta por Freud, mas já transmitida desde a tragédia grega que impõe ao sujeito, pela violência da linguagem, sua sina desejante, transgredindo o interdito pretendido pela paixão da ignorância. E é Ferenczi quem aponta para a violência originária da linguagem fazendo surgir daí o sujeito por via da palavra.

É da precariedade da condição de sujeito, dos seus restos, que poderão surgir, na análise, as formações do inconsciente que irão apontando, como uma bússola, para o norte do sintoma.

É nesse sentido um exercício de aprender a desaprender que vai possibilitando o aprender a aprender pretendido por uma análise; exercício tangido pelo sintoma e convocado pelo desejo. E não é daí também que emerge o artista, o poeta?

A incompatibilidade entre o desejo e a fala, já apontada por Lacan no texto "A direção do tratamento e os princípios do seu poder" já não indica a necessidade de interpretação requerida na origem da fala do sujeito?

Porque o sujeito quer ser escutado. E já não é desde aí que o pretendido bem-dizer o sintoma, de que fala a psicanálise, não seria uma tentativa de ultrapassagem dessa incompatibilidade? E não é de bem-dizer que se faz um poeta? Uma obra de arte?

A psicanálise se inscreve na tradição oral e a clínica demonstra que o sujeito, em associação livre, a genial invenção freudiana, vai sendo tangido, levado para outros lugares, outros sítios. Lugares de saberes insabidos. É um exercício de desarmamento do poder que o saber sabido porta. E isso é um exercício de estilo, uma instância que vai tomando forma, fazendo corpo no processo de construção de uma obra de arte. Evidente que o estilo alcançável em uma análise será um estilo coloquial, por conta mesmo das características de sua transmissão. Lembrando que a transmissão possível da psicanálise é transmissão de estilo, já ensina Lacan.

O bem-dizer o sintoma, de que fala a psicanálise, é que permite nos aproximarmos do ato criativo, pela instauração da falta, pelo se haver com o não saber. É o que permite o reconhecimento do desejo como falta, mais além do desejo de reconhecimento que opera ainda como demanda neurótica.

Pois não é o reconhecimento do desejo como falta que pode engendrar uma obra de arte? O que se transmite na psicanálise não é a positividade do conhecimento, mas, ao arrepio disso, as falhas e os furos que o saber já sabido revela pela fala do sujeito. Ou seja, a salvação possível por via da análise não se faz por uma busca dos ideais indicados pela cultura. Faz-se pela interpretação que é determinada pela leitura, já que não há leitura sem interpretação. E isso já indica uma necessária implicação do sujeito com sua fala.

Então está aí a psicanálise, uma invenção da nossa civilização, instalada inquietamente, por sua natureza pestilenta, dentro desta civilização do espetáculo que nos seduz e nos constitui também, mas que, acima de tudo, nos interroga.

É preciso perguntar sobre os efeitos até arrebatadores das imagens fabricadas sob medida para nos silenciar, desde o homem-bomba em seu ato extremo, até os corpos marombados impostos pelas mídias como ideal a ser alcançado.

Se é certo que uma nova economia psíquica está se instalando na nossa cultura do "pós-tudo", como querem alguns teóricos, é preciso questionar as relações do sujeito com o outro, com o transcendental, com o saber, com a arte... com o inconsciente. Se é que "o sujeito moderno é fundamentalmente definível como crítico e neurótico", no dizer do filósofo Dany-Robert Dufour em "A arte de reduzir cabeças", é preciso nos interrogarmos sobre a tal "perversão comum", no lugar da neurose usual, indicada por Jean-Pierre Lebrun, e sobre o "sujeito atópico", indicado por Charles Melman, falando da passagem da economia do desejo para uma economia do gozo.

Quais são as consequências na economia psíquica das modificações na economia mercantil? Será que a globalização com sua exploração da pulsão com fins mercantis, está nos levando à destruição do sujeito, justo ele a fonte da pulsão?

Na toada destes nossos tempos civilizatórios, a política, lugar do debate de ideias, vem sendo substituída por uma avalanche de imagens e aparências, operando no rumo da corrupção e da degradação da nossa condição subjetiva, operador maior do movimento psicanalítico.

É preciso questionar incessantemente, no campo analítico, sobre a passagem possível, para o sujeito, dessa estética hebefrênica para uma estética do erótico. Porque a vida, ela é erótica. Lacan diz que a criação artística pode funcionar como um "nó" que amarra e organiza a experiência subjetiva. A obra, o fazer, a criação, teriam o efeito de tratar o gozo para não ser aniquilado por ele. Na análise seria a passagem do poeta analista para a poesia análise.

Esse fogo é que pode nos sustentar na clínica e, desde aí, fazer avançar a psicanálise na cultura. E como o sujeito quer ser escutado, ele que apareça, que compareça pela sua fala. Caberá ao analista convocar a palavra. Claro que essa convocação se faz por via de um específico manejo transferencial, até porque a palavra, ela é analisante. Não é a palavra do analisante, mas a palavra, ela, analisante, que vai levando à descoberta, no sujeito, do saber inconsciente.

Alain Didier-Weill em seu texto "A questão da formação do psicanalista para Lacan", nos propõe uma questão instigante sobre um fato da clínica. Ele pergunta "...qual analista não se surpreendeu ao constatar, surpreso, que a inventividade manifestada por uma analisando no divã parece amiúde abandonar sua fala quando ele se fala na "verticalidade" do espaço institucional?" A questão avança apontando aí a existência de um Outro sujeito de exceção, o sujeito do inconsciente. É esse terceiro do discurso que comparece fazendo aparecer o sujeito dividido, que é em que a análise aposta.

Fatos assim, acontecentes no dia-a-dia da clínica, é que demonstram a estrutura de linguagem do inconsciente e que determinam a operação da práxis psicanalítica por meio da fala. E decorre daí o que a psicanálise reconhece como sendo ética a implicação do sujeito, por via do seu dizer, com seu gozo denunciado pelo sintoma.

Esse exercício de fala será uma operação ética, se na clínica, em presença do analista, o sujeito se questionar sobre sua inserção nos discursos, sua relação com o saber, com o outro, ou seja, com seus objetos pulsionais.

A associação livre será, nesse sentido, uma escrita, livre das amarras de se ficar procurando as palavras como para um texto escrito. A associação livre é um exercício de fala em que o sujeito vai sendo achado pelas palavras, vai sendo levado sintomaticamente a transferir suas economias de uma caução para uma sua canção, criando meios, emprenhado pelos tangimentos das formações do inconsciente que vão tomando dele o chão para fazer da fala a sua flauta. Será arte?

Assim se instala a psicanálise na cultura, operando na contramão dessa cultura. A dimensão incomensurável do inconsciente há que ser posta a trabalhar para fazer do sujeito que ousa ocupar o lugar de escuta alguém que conviva com a perda e o fracasso. A partir daí é possível a reconciliação com o humor para fazer da falta um modo de bem-dizer o próprio sintoma. E também, a partir daí, trabalhar com a psicanálise em extensão.

Perda, fracasso, singularidade, falta... é também por isso que a instituição de psicanálise deve estar em crise. Porque não é apenas um lugar de acolhimento dos sujeitos supostamente desejantes. É, mais que isso, um lugar para o questionamento da experiência do inconsciente e dos efeitos disso na produção dos sujeitos. Produção com marcas mais artesanais onde se inscreve alguma arteirice. Assim, essa produção poderá ser uma obra de arte, em que pese a psicanálise não ser arte.

Podemos dizer então que a psicanálise é meio ciência, meio arte. Seria a cienciarte de escutar o sujeito do inconsciente. Como ciência, é conjectural; só-depois para se saber. E arte, se fizer das conjecturas uma obra transmissível. Terá sido, então, portadora de um estilo, efeito de um saber-fazer com o sintoma, com maleabilidade, mas com precisão. Claro que isso é difícil, mas como diz Mário Quintana, "estilo é uma dificuldade de expressão".

Quero, para finalizar, apresentar dois poemas de dois poetas importantes, que mostram um estilo em seu fazer, concisamente e diferentemente.

 

Amor

Vinícius de Moraes

Vamos brincar, amor? Vamos jogar peteca

Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo

Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?

Vamos sofrer, amor? Males da alma, perigos

Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo

Vamos, amor? Vamos tomar porre de absinto

Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos

Fingir que hoje é domingo, vamos ver

O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?

Vamos, amor, tomar thé na Cave com madame de Sevignée

Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar

Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do parto?

Vamos, amor? Vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos

Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol

Vamos, amor?

Porque excessivamente grave é a Vida.

 

Traduzir-se

Ferreira Gullar

 

Uma parte de mim é todo mundo:

outra parte é ninguém: fundo sem fundo.

 

Uma parte de mim é multidão:

outra parte estranheza e solidão.

 

Uma parte de mim pesa, pondera:

outra parte delira.

 

Uma parte de mim almoça e janta:

outra parte se espanta.

 

Uma parte de mim é permanente:

outra parte se sabe de repente.

 

Uma parte de mim é só vertigem:

outra parte, linguagem.

 

Traduzir uma parte na outra parte

- que é uma questão de vida ou morte -

será arte?

 

Referências Bibliográficas

 

Sigmund, Freud. O homem dos ratos. In: Obras Completas, vol. X, Ed. Standard Brasileira.

Lacan, Jacques. A direção do tratamento e os princípios do seu poder. Jorge Zahar Editor, 1998.

Israel, Lucien. Mancar não é pecado. Editora Escuta, 1994.

Dufour, Dany-Robert. A arte de reduzir cabeças. Ed. Cia de Freud, 2002.

Soler, Colette. Lacan, o inconsciente re-inventado. Cia de Freud, 2012.

Jorge, Marco Antônio Coutinho (org). Lacan e a formação do psicanalista. Ed Contracapa, 2010.

Quinet, Antônio (org). Psicanálise e Psiquiatria - controvérsias e convergências. Ed. Marca d'Água, 2001.

Melman, Charles. Novas formas clínicas no início do terceiro milênio. CMC Editora, 2003.

______________. O homem sem gravidade. Cia de Freud, 2008.

Miller, Jacques-Alain. Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan. Jorge Zahar Editor, 2011.


[1] Trabalho apresentado no IV Encontro Nacional do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise, em 30/10/14, em Pirenópolis - GO.

[2] Membro cofundador da Fazenda Freudiana de Goiânia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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