A palavra cartel possui inúmeras acepções, dentre as quais a que nos interessa pelo momento, a do dispositivo inventado por Jacques Lacan para resolver a complicada questão da transmissão e do ensino da psicanálise na sua instituição psicanalítica, a Escola Freudiana de Paris (E.F.P.), em 1964. Naquele momento Lacan acabava de romper, ou melhor, de ser expulso da International Psychoanalytical Association (I.P.A.), por discordar do modelo de formação então em vigor e por denunciar as fraudes cometidas por seus membros em nome de Freud. Dezesseis anos depois, quando da dissolução da E.F.P. e da formação da Escola da Causa Freudiana (E.C.F) fundada em 1981, Lacan continuou apostando nesse dispositivo como órgão de base para a transmissão e o ensino da psicanálise. Uma longa e interessante história...

O cartel é um grupo formado por quatro pessoas que se escolhem e convidam uma quinta pessoa para ocupar o lugar que Lacan chamou de mais-um. Segundo Quinet, esse mais-um é a pessoa que "tem como função justamente a de, ao ser designada para esse papel, não ocupar a posição esperada do líder e da suposição do saber. E isso para fazer com que cada componente do cartel realize um trabalho pessoal e não se deite no conforto de fazer o que o mestre mandar e de aprender o que o mestre ensinar. O mais-um, é aquele que aponta para o furo da função do líder para fazer o saber circular, fazendo de cada um, um mestre". [1]

A formalização concebida por Lacan sobre o cartel é a seguinte:

Em primeiro lugar - Quatro se escolhem, para processarem um trabalho que deve ter seu produto. Eu preciso: produto próprio a cada um, e não coletivo;

Em segundo lugar - A conjunção dos quatro se faz em torno de um Mais-Um, que, sendo qualquer um, deve ser alguém. A ele cabe o encargo de velar pelos efeitos internos da empresa, e de provocar sua elaboração.

Em terceiro lugar - Para prevenir o efeito de cola, uma permutação deve ser feita ao término fixado de um ano, dois no máximo.

Em quarto lugar - Nenhum progresso é esperado exceto o de uma apresentação periódica e pública dos resultados como das crises do trabalho.

Em quinto lugar - O sorteio assegurará a renovação regular das referências criadas com a finalidade de vectorializar o conjunto".[2]

A Fazenda Freudiana como uma instituição de formação de novos analistas mantém o cartel em seu programa e se reserva o direito de usá-lo à sua maneira, pois reconhece sua importância assim como suas crises. O cartel favorece a transferência para com o trabalho, diferente da transferência da análise que muitas vezes se constitui como fator impeditivo de produção de saber dentro da instituição.

Norton Godinho Leão

[1] Quinet, Antônio, "Prefácio", in O Cartel, Rio de Janeiro, 1994.
[2] Lacan Jacques, "D´Écolage", in Ornicar ? ,Paris, Seuil, N. 20-21, 1980, p. 15.

 

»13/12/17 19:30
Assembléia

»13/12/17 19:30
Oficina de Psicanálise de Fernanda Almeida

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